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Episódios no reino da Cracolândia

 

Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”

 

Recordo ainda hoje aquele momento repleto de ansiedade e de entusiasmo, quando me apercebi da minha nova realidade- viver e trabalhar na Polónia.

Até então devo confessar que dispunha de muito pouca informação sobre este país, e este facto tornava a minha decisão ainda mais interessante e surpreendente.

Estar na Polónia não é estar a Leste, como muitos afirmam; é, pelo contrário, situar-se no coração da Europa, no centro do velho continente.

Curiosamente lembro-me e sinto constantemente o verdadeiro significado da expressão “ estar a leste”, tão comummente utilizada em Portugal. Na verdade, existe uma relação tão íntima entre o meu processo de adaptação e esta expressão que me atrevo a criar uma nova variante- “ estar a oeste ” na Polónia.

Aquilo que ao início parecia ser um encontro entre duas culturas tão afastadas e aparentemente com imensos pontos comuns, revela-se com o tempo também uma descoberta de imensas diferenças culturais despercebidas.

O meu querido Fernando Pessoa já dizia que “tudo vale a pena quando a alma não é pequena”, e foi exactamente dentro deste espírito que abracei esta nova aventura.

Um ano passou e continuo na Polónia, em Cracóvia. A realização profissional é demasiado importante para recusar esta oportunidade de continuar o meu trabalho em prol da divulgação da Língua Portuguesa. A nível pessoal, enriqueci mas também perdi. A vida tem destas coisas, e (in)felizmente não se pode ter tudo.

Sinto-me como um dia o grande poeta da Língua Portuguesa se deve ter sentido ao afirmar “ a minha Pátria é a Língua Portuguesa”. Aqui na Polónia, a minha Pátria é efectivamente esta língua maravilhosamente diversa. As aulas têm o poder de me fazer por instantes sentir em casa. Não estou longe da minha Pátria, vivo com ela e sou a sua embaixadora.

A sua melodia e criatividade quando cantada por um brasileiro, a sobriedade e o conservadorismo quando proferida por um português e o seu ritmo palpitante quando “dançada” por um cabo-verdiano, um moçambicano ou angolano tornam a língua portuguesa uma entidade viva, que fascinantemente se desdobra em diversas variantes, cada uma delas com o seu interesse.

Não poderia terminar sem mencionar um outro encontro- o da língua polaca.

Oh Boze! Resumidamente, na minha opinião, a primeira língua verdadeiramente difícil e exigente e um verdadeiro desafio a todos aqueles que adoram línguas estrangeiras.

Przepraszam , ale ja nie mowie po polsku” tornou-se desde logo a minha frase da praxe. Lamentavelmente continuo a servir-me dela como se de uma bengala tratasse e, assim, não ouso partir para voos mais altos.

Porém, neste momento, posso revelar que se registou uma pequena mudança: digamos que a minha frase da praxe evoluiu para “ Ja mowie tylko troche po polsku“!

Em algumas situações do quotidiano, como num supermercado, é fácil arrancar-me, no meu tímido polaco, um agradecimento minimamente perceptível, como “ Dziekuje”. Em qualquer língua, esta palavra encabeça a “Lista das primeiras palavras vitais no primeiro contacto”, mas parece-me que na língua polaca existe outra rainha, aquilo eu designaria como algo semelhante a “mandar alguém dar uma curva”, expressão tão vulgarizada pelos meus conterrâneos.

Tudo vale mesmo a pena? Evidentemente que sim, porque os nossos sonhos são os acontecimentos do futuro e as recordações do passado.

 

Fernanda Ricardo